Entrei naquele hospital uma jovem que não sabia nada da vida e saí uma leoa, com o seu filhote, disposta a tudo.
Disseram que seriam 15 dias de internação, mas no fundo eu sentia que não seria assim.
A sala era gelada, meu corpo tremia por dentro, o silêncio ecoava. Tentava rezar, mas não conseguia. Demoraram um pouco para tirá-la de dentro de mim, acho que ela também não queria. Quando tiraram ela não chorou de primeira, mas logo chorou forte, deram um pouco do medicamento que ela precisava para que o coração continuasse funcionando como funcionava na barriga e me deixaram vê-la. Dei um beijo, falei "oi filha" e disseram que precisava levá-la. Fui vê-la somente no outro dia.
Meus pais e minha madrinha seguiram com ela e Jonas ficou comigo.
Estava bem, a ficha não tinha caído. Enquanto me recuperava vieram apertar minha barriga 2 vezes e como aquilo doía. Segui para o quarto e assim continuou, aperta barriga, aperta peito, levanta pra tentar fazer xixi, "mãezinha" pra cá, "mãezinha" pra lá e a pressão vai a 6x3, quase desmaiei.
Alice não passou bem a noite, precisou ser entubada, mas de manhã extubaram.
Diziam que ela não podia se esforçar para mamar, só se alimentava pela sonda nasogástrica. E tomava a medicação na veia, que fazia o coração funcionar até que fosse feita a cirurgia.
No outro dia, quando consegui ir vê-la, estava tão linda, 2,250kg de muito braveza, dentro de uma incubadora, cercada de outros recém-nascidos, um lugar que não deveria precisar existir. E lá estava ela, com acessos, ligada a vários monitores, apenas de fralda, sem um colo, um aconchego ou uma mantinha.
Na época passava na TV o remake de Pantanal e apelidamos ela de Juma Marruá, de tão brava que ela era, o que só se confirmou com o passar dos dias. Apesar de tudo aquilo, estava indo bem, mas sair daquele hospital sem ela foi horrível e eu continuei saindo por um bom tempo.
Nesses primeiros dias, não conseguíamos estar o tempo todo com ela, devido a minha cesárea e o fato de não ter onde ficar por muito tempo na UTI Neonatal. Só tinha algumas cadeiras que se dividiam entre os pais.
Ela nasceu numa quinta e eu fui pegá-la pela primeira vez no domingo, era Dia dos Pais, foi o presente do Jonas.
5 Dias viraram 15, ela precisou chegar a 3kg para fazerem a cirurgia. Durante esses dias eu me dividia entre a sala de ordenha, ficar com ela e ir pra casa. Eu não conseguia ficar por muito tempo junto dela, tentava manter uma certa distância, era meu extinto de defesa, querendo não se apegar para não sofrer.
Percebi que nada disso adiantou no dia da cirurgia, eu já amava desesperadamente aquele ser tão pequeno. E se até ali eu achava que estava difícil, mal esperava pra ver.
A cirurgia foi um sucesso, pelas mãos do Dr. M. F. e sua equipe. Agora é a recuperação, eles diziam.
A UTI agora era cirúrgica, os leitos pareciam quartos, ali podíamos acompanhá-la de perto e assim fizemos, não saímos mais de perto dela. E embarcamos numa montanha-russa louca de 200m de altura, que é a UTI.
Ajuste de medicações para dor, hipóxias que chegava a 20%. Vi minha filha morrer algumas vezes e voltar a vida. Quando isso começou a melhorar, ainda assim a saturação não estabilizava em um limite esperado. Resolvem então fazer um cateterismo, que foi um sucesso também.
Saturação estabiliza e no outro dia, piora novamente, mas agora era um derrame pleural causado por um quilotórax, uma possível complicação causada na cirurgia. O tratamento era ficar 15 dias em jejum, mais 15 dias tomando uma dieta especial.
E eu fiquei todo esse tempo, ordenhando e jogando fora, só para o meu leite não secar, porque tinha convicção que ela iria precisar dele.
Nesse meio tempo, nada de evoluir para uma extubação, que tanto estávamos ansiosos. Os dias pareciam se arrastar. A alimentação parenteral deixa o organismo mais suscetível a infecções, além de toda a invasão a que estava submetida. Resultando em alguns episódios de pneumonia e sepse.
E ela foi vencendo cada um deles.
Chegou a ficar 6h extubada, mas não se adaptou ao CPAP e teve que ser novamente entubada.
Todos esses episódios pareciam que iriam nos destruir. Lá só conseguíamos ver os passos que dávamos para trás, o que acontecia de pior, mas ainda assim, seguíamos firmes ao seu lado, com a certeza de que lhe mostraríamos o mundo.
Após esta falha de extubação e o fato de que não conseguiam progredir com a sua dieta, resolveram fazer a cirurgia abdominal. Isto porque quando ainda estava na Neonatal, ao investigarem possíveis outras má-formações, suspeitaram de uma má-rotação intestinal.
Precisavam operar para constatar e resolveram fazer uma gastrotomia, afinal, já estava a 50 dias entubada, sem nunca ter tomado nada pela boca. Inicialmente aquilo nos assustou, mas se diziam ser o melhor, assim autorizamos.
E lá fomos nós, entregar Alice mais uma vez ao bloco cirúrgico.
Dra. R. B. uma excelente cirurgiã-geral pediátrica, que operou Alice desta vez, disse que jamais viu em toda sua carreira uma má-formação tão grande. Fez junto cirurgia anti-refluxo e tirou o apêndice, além da gastrotomia. E apesar da dificuldade, correu tudo bem. Agora é a recuperação, mais uma vez.
Muita dor, controle de medicação, e enfim o pior passou. Dra. R. B. dizia que o intestino dela voltaria a funcionar com cerca de 10 dias, e em 4 ele já dava sinais. Com uma semana pude enfim voltar a dar meu leite pra ela.
Como aquilo me alegrou. Não existe recompensa maior para uma mãe do que poder alimentar seu filho.
Demorou um pouco para que a nutrição pudesse ser dada plenamente, mas o resultado disso foi ela não ter pego mais infecções.
Quando ela estava apta a ser extubada, quiseram deixar para o médico da segunda fazer isso com mais calma. E numa noite de domingo, dá uma rolha no tubo, que causa uma parada cardiorrespiratória de 10 minutos.
Revoltante. Poxa, ela estava tão bem, como que isso foi acontecer? Mas não é que como fênix, mesmo tendo passado por aquilo, ter dados alguns passos para trás em medicação e parâmetros ventilatórios, ela teve outra excelente semana que termina com a tão esperada extubação.
70 dias ao todo entubada e com mais 15 dias entre CPAP e cateter nasal, ela enfim, consegue respirar sozinha.
Para a tão sonhada alta, tivemos que brigar um pouquinho, acho que não acreditavam que ela fosse continuar bem depois de tudo que passou.
Mas ela ficou e o dia tão esperado chegou, um sábado, 03 de dezembro, o dia mais feliz da minha vida.














Nenhum comentário:
Postar um comentário