sábado, 14 de dezembro de 2024

Mais uma batalha vencida









16 de agosto, exatos 5 dias após seu aniversário, entregamos Alice pela terceira vez no bloco cirúrgico. Foi muito dolorido, principalmente por já saber que mesmo quando corre tudo bem ainda há muito que ser vencido e uma previsão de 15 dias pode virar 4 meses. E já sabendo também como é um pesadelo viver dentro de um hospital, apesar de ter a consciência do enorme privilégio que é ter condições de ter um plano de saúde e o quanto que o que é muito ruim, pode ser ainda pior. 

A cirurgia desta vez seria de peito aberto, a primeira foi de lado, e seria necessário a máquina de circulação extracorpórea, que é uma máquina que faz o trabalho do coração, enquanto ele é operado. 

Não sei quantas horas durou aquilo, mas pareceu uma eternidade. E o sonho que estávamos vivendo, virou mais uma vez um pesadelo. 

A recuperação dela foi difícil, mas um pouco menos que da primeira cirurgia. A maior dificuldade foi aceitar que ela não conseguiria mais respirar só pelo nariz. A primeira tentativa de extubação só pôde acontecer depois de mais de uma semana da cirurgia e a segunda com vinte e poucos dias e em nenhuma delas ela conseguiu ficar mais que uma hora sem o tubo. 

Como foi difícil passar por aquilo, como foi difícil vê-la tentando respirar, sem conseguir. E depois da segunda tentativa, o quadro dela piorou e decidem por fazer a traqueostomia assim que ela estabilizasse. 

Aceitar a traqueo não foi fácil, mas ela não merecia ficar com aquele tubo, além do risco que é ficar com ele por ainda mais tempo. Sabíamos que teríamos ainda mais limitação com ela e que a rotina ficaria mais delicada, mas se era isso que era necessário para ela continuar viva e bem, encararíamos. 

E mesmo com tudo desabando, Alice chegava a sorrir intubada, era como se dissesse "fica calma mãe, eu tô bem"... como eu me sentia pequena perto dela. Para ela, ouvir nossa voz já era suficiente e eu querendo tanta coisa, que pra ela não fazia a menor diferença. 

Ah como ela me ensinou! Como cuidar dela foi especial e me fez mais próxima de Jesus. 

Com cerca de 50 dias de internação e intubação, entrego ela pela quarta vez no bloco cirúrgico. E o médico responsável dizia que a cirurgia seria muito arriscada, que ela tinha um pescoço muito curto e algumas ínguas causadas pelo tubo que deixava a superfície do pescoço muito distante da traquéia. Dizia que ela poderia voltar muito grave e que poderiam nem conseguir fazer a traqueo e ela voltar entubada ainda. Muitas coisas fortes que nos deixavam muito preocupados, mas ainda mais confiantes, porque sabíamos que Alice gostava de triunfar no impossível. 

E assim ela fez, a cirurgia foi um sucesso e com 3 dias de pós operatório ela já estava sorrindo, como quem agradecia por ter tirado aquele tubo da garganta e recebido uma nova oportunidade de continuar vivendo. Com 15 dias ela conseguiu sair da ventilação mecânica. 

Tivemos poucas intercorrências nessa internação, mas logo nos primeiros dias de pós operatório da cirurgia do coração notou-se um coágulo no coração, sendo necessário tomar injeção anticoagulante por alguns meses que se seguiram. Teve uma infecção de urina que foi facilmente tratada e uma intolerância alimentar que chegou-se a conclusão que era apenas uma lentidão intestinal que poderia ter sido causada pela recente cirurgia no coração. 

Para nós essa internação foi psicologicamente mais pesada devido a todos os traumas que a gente carregava, mas Alice estava na maior parte do tempo bem, vendo seu Bolofofos. Pudemos dar mais colo pra ela, brincar, fazer as chamadas de vídeo que ela tanto amava. Quando precisávamos sair do leito por algum momento e voltávamos, ela pulava de alegria!

E assim seguimos por longos três meses até mais um dos dias mais felizes das nossas vidas, a alta. Depois é claro de muita briga. 

Dia 13/11/23 Alice foi pra casa com traqueo, em uso de oxigênio e heparina, a injeção anticoagulante, mas ela estava muito bem. 

Estar em casa para ela era a maior alegria e a nossa também!  


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